Os trabalhadores da companhia aérea cabo-verdiana (TACV), signatários de uma “carta aberta” de 12 páginas dirigida a várias entidades e a toda a nação cabo-verdiana, manifestam a sua insatisfação com a forma como o Governo vem conduzindo o processo da reestruturação da empresa.

Os subscritores da missiva dizem ter sido “menosprezados e vilipendiados” por quem tinha o direito constitucional de os defender e que a sua voz “não foi tida nem achada” no processo de “desconstrução” da empresa.

Sublinham a importância da componente humana em qualquer empresa e que deve ser tida sempre em conta mesmo nas companhias aéreas em que a “automatização de várias operações é hoje uma realidade insofismável”.

“Dói, pois, constatar que os que decidiram sobre o destino de várias famílias (cerca de trezentas), de acordo com informações recentemente veiculadas na comunicação social, fizeram-no sobrevalorizando a componente materialista (economicista e financeira) e subestimando os valores sociais (humanos) da empresa”, lê-se na carta enviada à imprensa.

Os trabalhadores recordam ainda que a TACV (Cabo Verde Airlines) é uma companhia com história, um património nacional mais antigo (criado a 27 de dezembro de 1958) e que o próprio Estado, erigido a 5 de junho de 1975 (data da independência de Cabo Verde), atribuiu desde o início a missão de aproximar as ilhas e, mais tarde, unir a diáspora cabo-verdiana à mãe pátria.

Os subscritores da carta perguntam-se ainda se os Cabo-verdianos terão o prazer de assinalar, daqui a seis meses, o 59º aniversário da TACV e se serão lembradas as suas 60 primaveras, em 2018.

“Os trabalhadores e o povo não terão o prazer de assinalar essas efemérides, porque a TACV foi ferida de morte e, diga-se em abono da verdade, de morte lenta”, anotam.

Referindo-se ao anúncio da retirada, a 1 de agosto da TACV, das operações domésticas e à criação da TACV Internacional, os trabalhadores consideram que se trata de decisões cujas consequências “é o povo quem vai arcar”.

Por outro lado, eles dizem acreditar que nunca se chegou a encontrar um modelo económico que melhor servisse à Empresa Pública TACV, mesmo depois da nomeação dos vários conselhos de administração pelos sucessivos governos, “quase sempre com base na filiação e confiança partidária dos detentores ocasionais do poder”.

Por isso,  os trabalhadores dizem estar cientes de que a “excessiva politização” da gestão da TACV terá também tido um papel “bastante negativo” na vida desta companhia de bandeira nacional.

Questionam o Estado por não ter fornecido instrumentos de trabalho indispensáveis à continuidade do desenvolvimento e à sustentabilidade das operações, nomeadamente aviões, entre outras medidas.

Defendem ainda que os trabalhadores não podem ser os únicos responsáveis pela situação em que a empresa se encontra, e que os vários culpados deste estado de coisas só poderão ser encontrados com uma inspeção/auditoria “verdadeiramente isenta e abrangente, num horizonte temporal de não menos de 20 anos.

Asseveram, por isso, estarem empenhados em fazer valer os seus direitos, desde logo o direito ao trabalho e a um nível de vida condigna, compatível com o atual estatuto de funcionários e quadros permanentes da TACV.

Posto isto, apelam e exigem, em vários pontos e alíneas distintas, que, por exemplo, o processo de alienação da TACV seja conduzido com a máxima transparência, sobretudo no que diz respeito aos direitos adquiridos e às normais expetativas de carreira, bem como às indemnizações que vierem a receber e  que, em caso de despedimento, estas sejam pagas numa única parcela.

Conforme já revelou o presidente do Conselho de Administração, José Luís Sá Nogueira, a reestruturação da companhia área pública cabo-verdiana TACV vai implicar o despedimento de 260 pessoas, o equivalente a quase metade dos trabalhadores.

O responsável da empresa, que falava na Comissão Especializada de Finanças e Orçamento da Assembleia Nacional (Parlamento), adiantou que a empresa deverá gastar 13,6 milhões de euros em indemnizações aos trabalhadores dispensados.

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