Alemanha: regressar à natureza em percursos pedestres para andar descalço

Percursos pedestres para andar descalço na Alemanha inspiram criação de novos trilhos de natureza semelhantes nos Estados Unidos.

Na beira de um trilho na pitoresca região da Floresta Negra, na Alemanha, degraus encharcados afundam em água e lama até ao tornozelo, obrigando a caminhar com cuidado. A verdadeira particularidade do percurso, porém, é ter sido concebido para ser usado pelos visitantes sem meias nem sapatos.

Há trilhos para andar descalço um pouco por todo o mundo, que convidam a aproximar-se da natureza através de sons e sensações. Sentir a lama fresca a espremer-se entre os dedos dos pés, pisar agulhas de pinheiro e explorar grutas de meditação, estações de aromas e salas escuras transforma um simples passeio numa experiência envolvente.

Andar descalço em superfícies variadas pode também contribuir para o bem-estar emocional e para a saúde geral dos pés, segundo especialistas em podologia e adeptos de caminhar descalço.

Eis porque é que algumas pessoas estão a voltar a ligar-se à terra, passo a passo.

Trilhos descalços como movimento ambiental e de saúde

As teorias sobre os benefícios de andar descalço ganharam popularidade entre corredores e outros atletas nas últimas décadas, bem como entre ambientalistas e como forma alternativa de tratar problemas de saúde mental, mas a ideia existe há bem mais de um século.

Sebastian Kneipp, sacerdote católico alemão do século XIX e um dos primeiros pioneiros da naturopatia, defendia o contacto com a natureza, a hidroterapia e as caminhadas descalço como exercício e forma de estimular a circulação e reforçar a saúde em geral, incluindo o sistema imunitário. Recomendava andar descalço sobre “relva molhada pelo orvalho” ou neve e terá chegado a apelidar os sapatos de “máquinas de entortar pés”.

A sua filosofia inspirou trilhos e percursos por toda a Europa, onde são por vezes conhecidos como caminhos Kneipp, e, em menor escala, nos Estados Unidos. Na Ásia, percursos de reflexologia feitos de pedras, seixos e relva pretendem estimular pontos de acupressão na planta dos pés, um conceito associado a terapias médicas tradicionais.

Um letreiro do Parque para Todos os Sentidos, conhecido localmente como Park mit allen Sinnen, visto na quinta-feira, 8 de agosto de 2024, em Gutach, Alemanha.
Um letreiro do Parque para Todos os Sentidos, conhecido localmente como Park mit allen Sinnen, visto na quinta-feira, 8 de agosto de 2024, em Gutach, Alemanha. AP Photo/Kelvin Chan

Alemanha: parque ‘com todos os sentidos’

“Park mit allen Sinnen”, que significa “parque com todos os sentidos”, reflete uma aposta mais ampla no turismo de bem-estar na Floresta Negra, que se estende por mais de 6.000 quilómetros quadrados e onde os visitantes podem respirar ar de montanha, relaxar em termas e frequentar spas que oferecem tratamentos com plantas e ervas locais.

No seu site, lê-se que percorrer descalço as diferentes superfícies do trilho, com cerca de dois quilómetros, “é ideal para exercitar as costas e a coluna e, ao mesmo tempo, constitui uma perfeita massagem de reflexologia aos pés ao ar livre”.

A norte-americana Leah Williams, proprietária do parque The Barefoot Trail, perto de Flagstaff, no Arizona, criou há dois anos, junto à Route 66, um trilho cuidado com a mesma extensão, inspirado numa viagem de família à Europa. É necessário bilhete, embora Williams administre o parque como fundação de beneficência sem fins lucrati

Ao recordar a infância, Williams conta que a mãe, alemã, a incentivava a andar descalça quando trepava às árvores e brincava nas florestas e ribeiros em redor de Seattle – um hábito que manteve na idade adulta e transmitiu aos próprios filhos. Quando vivia nos Países Baixos, a família visitou um trilho para andar descalço na Bélgica.

“Adorei tudo aquilo. Vi pessoas de todas as idades e gostei especialmente de ver pessoas mais velhas no parque, porque isso não é comum aqui nos Estados Unidos”, diz Williams. “Pensei: ‘Quando voltar aos Estados Unidos, vou construir eu própria um parque destes’.”

Disponibiliza materiais educativos para escolas, programas de verão e campos de férias às crianças que visitam o parque.

“Ser bons guardiões da natureza é, no fundo, a nossa missão enquanto seres humanos, e reservámos [cinco hectares] de terreno do nosso parque para usufruto da comunidade, … para usufruto local, estadual e regional”, afirma Williams.

Sapatos pendem junto à entrada de um trilho para andar descalço perto de Flagstaff, Arizona, na quinta-feira, 16 de abril de 2026.
Sapatos pendem junto à entrada de um trilho para andar descalço perto de Flagstaff, Arizona, na quinta-feira, 16 de abril de 2026. AP Photo/Cheyanne Mumphrey

Experiência para os sentidos

A maioria das pessoas não anda regularmente descalça ao ar livre, e expor os pés sensíveis a diferentes texturas, temperaturas e tipos de contacto pode exigir alguma habituação.

“Deviam ver as expressões das pessoas quando começam a andar”, diz Williams.

Embora muitos parques com trilhos para andar descalço incentivem os visitantes a percorrer os caminhos sem calçado, isso não é obrigatório. Pessoas com neuropatia, diabetes ou problemas nos pés podem manter os sapatos postos, tanto no parque do Arizona como no da Alemanha.

Alguns destes trilhos são pensados para estimular vários sentidos em simultâneo.

No Park mit allen Sinnen, um letreiro em alemão com a indicação ‘Silêncio, por favor’ assinala um espaço descrito como gruta de meditação. No interior, um banco comprido fica voltado para grandes janelas com vista para a floresta, enquanto uma música suave toca em colunas escondidas.

Noutros pontos do parque, os visitantes podem pressionar pequenas bolas vermelhas para libertar o aroma de papaia ou de alperces, ou colocar as mãos dentro de uma caixa forrada com pelo de javali.

Um letreiro do Parque para Todos os Sentidos, conhecido localmente como Park mit allen Sinnen, visto na quinta-feira, 8 de agosto de 2024, em Gutach, Alemanha.
Um letreiro do Parque para Todos os Sentidos, conhecido localmente como Park mit allen Sinnen, visto na quinta-feira, 8 de agosto de 2024, em Gutach, Alemanha. AP PhotoAP Photo/Kelvin Chan

Descalçar os pés passo a passo pelo mundo

Áustria, Dinamarca, França, Hungria, Suíça e o Reino Unido estão entre os países europeus que também têm trilhos para andar descalço. Alguns destinam-se sobretudo a residentes e não a turistas, o que pode tornar a sua localização mais difícil. Procurar os termos equivalentes a ‘barefoot’ ou ‘barefoot paths’ na língua local pode ajudar.

Em Hong Kong, Singapura e no Japão, alguns parques públicos incluem percursos de seixos, passadiços com pedras lisas fixas no chão que podem ser usados para reflexologia e massagem aos pés.

De forma semelhante, existem parques de bem-estar e caminhadas informais descalço em trilhos convencionais nos Estados Unidos. Mas, devido à sua raridade no país, Williams planeia levar o conceito The Barefoot Trail a outros lugares.

A fundação recebeu recentemente cerca de oito hectares de terreno numa zona comercial e residencial da cidade universitária de Lawrence, no Kansas, para desenvolver um parque semelhante ao que abriu no Arizona.

“O parque será um dos elementos de um espaço comercial mais amplo que está a ser desenvolvido”, explica Williams. “Trata-se de integrar esses ambientes naturais no quotidiano das pessoas e de disponibilizar espaços seguros de que possam usufruir.”

Fonte: https://pt.euronews.com/2026/04/27/alemanha-regressar-a-natureza-em-percursos-pedestres-para-andar-descalco